Eu nasci em Juiz de Fora, Minas Gerais. Vivi até meus 16 anos no bairro de Santa Terezinha, próximo ao cemitério. Estudei em um colégio militar no mesmo bairro, então minhas vivências aconteciam naquelas proximidades, em uma bolha de amigos que viviam a mesma realidade. Todos os dias, passava na mesma padaria depois do colégio com o meu pai, torcendo para me levar na loja de doces, e eu poder comprar meu amassyxup e um sorvete da icebom enquanto ele conversava com o dono, que após 10 anos fazendo esse caminho com a minha irmã e comigo, já eram amigos.
Hoje, ao retornar ao meu bairro, visitar minha antiga casa, passar na padaria, não reconheço os trabalhadores e nem sequer encontro a loja de doces. Ao mesmo tempo que essas lembranças pontuais me recordam daquele tempo maravilhoso – onde minhas únicas obrigações eram decidir entre o sabor de flocos ou napolitano do sorvete, brincar de escolinha com a minha irmã em casa e tomar banho às 11h em ponto, para meu pai me buscar 12h, já almoçada, e me levar ao colégio –, eu não me identifico mais com aquele local quando estou nele.
E com o passar dos anos, menos gatilhos ainda terei quando andar por aquelas ruas. Este local transformado dá espaço para memórias de outras pessoas e espero que elas agarrem estas lembranças, que eu não agarrei o suficiente – e se foram pelo vento.
Acho que é complexo entender que nós somos responsáveis pelo que é patrimonializado. Acho que foi posto em nós algo tão distante, tão burocrático, que não somos nem sequer capazes de pensar que nossas vivências podem ser importantes para a memória do município. Às vezes conversava com amigas, e elas me contavam que também iam naquela loja de doces, e que os pais dela também eram amigos do dono.
Pensava de dois jeitos. O primeiro, sentia ciúmes de aquela não ser uma relação só minha, vivia em segredo, guardava só pra mim. Hoje percebi que o fiz tanto, que agora ela só está no meu imaginário e nem mais a loja existe para contar a história. A segunda forma era entendendo como nossas vivências individuais não são únicas, todos passamos pelas mesmas coisas – o que é claro de observar, como citei anteriormente, já que tínhamos as mesmas idades, pais com a mesma profissão, os mesmos amigos, no mesmo bairro – e fico me responsabilizando por não ter compartilhado essa memória e ido atrás de manter a loja de doces aberta, para que não só eu, mas todos que tinham lá como rotina, pudessem continuar com esse gatilho, que fazia parte da minha infância (e de tantos outros), do meu eu criança.
Os gatilhos que tanto procurei ao visitar meu antigo bairro não estavam mais lá, mas isso não significa que suas memórias de hoje, não podem se transformar nos gatilhos de amanhã. Uma cidade é construída com o passar das décadas.
Eu acredito na sobreposição das memórias.
Imagine: Você está caminhando em uma rua pela primeira vez. Ao virar a esquina e se deparar com ela, não é possível reparar em uma padronização de gabaritos. Na verdade, existem prédios de 20 andares com 6 metros de jardim até a rua; algumas casas de até três andares, com lojas em suas garagens; um galpão de 6 metros de altura que comporta uma oficina, e se olhar bem, ao fundo deste enorme galpão de estrutura metálica, há uma construção em alvenaria e esquadrias de madeira; uma padaria, comportada em uma antiga casa térrea.
Ao caminhar por estas edificações, você se depara com um jovem adulto, com seus 19 anos, vendendo amendoim caramelizado esperando o sinal fechar para apoiar os saquinhos no para brisa dos carros. Quando o sinal abre para os pedestres, você atravessa e percebe o garoto sorridente atendendo um cliente, que pergunta como está sua mãe. Antes de pisar na calçada novamente, você repara que o meio fio ainda está com sobras de tinta cal, verde e amarela.
Idosas estão entrando em um dos prédios de mais de vinte andares e comenta: “ainda bem que eles mantiveram às rosas de minha antiga residência”. Enquanto isso, ao começar a sentir o cheiro de graxa, fica confusa se é dos carros ou do sapateiro, que tem sua loja no primeiro pavimento de uma das casas. Os donos estão conversando alto, parecem velhos amigos, já que são vizinhos de estabelecimentos e residências.
Entende como acontece a sobreposição de memórias? O passado e presente acontecem ao mesmo tempo. Enquanto uns estão iniciando suas vidas naquele local, outros estão só de passagem. Alguns locais se transformam, mas mantém sua essência através de pequenos símbolos que as pessoas lutam para manter. No fim, os cenários das nossas vidas, são mais importantes do que imaginamos para a construção do nosso ser e para o bem estar do nosso cotidiano.
Ao passar do tempo, muitas tecnologias surgem e os espaços começam a se tornar obsoletos para alguns usos, enquanto outros precisam crescer. Este movimento é real, a cidade está viva e em desenvolvimento, então a demolição e a reconstrução é uma realidade. Mas ainda assim, existem edificações, pessoas, comidas – e tudo aquilo que é salvo pelo patrimônio material e imaterial –, que são importantes para a representação de uma população, e que sem eles, toda a linha que tece e os une se enfraquece, criando apenas indivíduos soltos sem identidade e proximidade com o território, máquinas que trabalham.
Desta maneira, a cidade deve manter estas características que a torna única e reconhecível. Estes denominados gatilhos são a linha que une uma geração à outra, que relembra sua história e aprende com ela para construir um futuro adequado àquele recorte. Este emaranhado de fios une o passado com o presente e fortalece a cidade para a criação de um futuro sustentável para as próximas gerações. Para além de pensar no patrimônio como um rito de congelar estes espaços (e/ou coisas) no tempo, pensa-se em como ele pode contribuir para a construção de uma sociedade unida.
O preconceito com o tombamento ainda existe. Quando converso com os meus pais e parentes próximos sobre lindas e/ou significativas construções que são perdidas pelo tempo, eles ainda trazem distanciamentos, como se não fossem capazes de influenciar essas decisões. Seria muito ingênuo da minha parte acreditar que nós conseguimos interferir nessas decisões, tendo em vista o mercado construtor da cidade e a especulação imobiliária, principalmente nas zonas centrais, além do descaso com a crise climática, que após meses, é esquecida pelo privado (responsável por muitas das catástrofes).
Mas ao mesmo tempo, os movimentos iniciais para trazer luz aos bens que gostaríamos de conservar, são de nossa responsabilidade. Se ninguém lembrar de enviar um pedido, este é perdido pelo ar e na primeira oportunidade, destruído para dar espaço a um prédio de 20 andares.
Isso acontece porque muitos dos aprendizados acerca de patrimônio material e imaterial são discutidos apenas na academia. Eu mesma só comecei a ouvir sobre estas questões em um ponto de vista histórico dentro da universidade. Mesmo no Instituto Federal, quando cursei edificações, ainda era voltado para o mercado e como agir frente ao tombamento, sem se voltar para uma visão cultural, de essência do indivíduo. Até os trabalhos envolvendo essa conscientização ainda são voltados às crianças, que apesar do olhar sensível, não estão à frente de grandes poderes decisórios – talvez daqui 20 anos estamos a salvo, mas proteger é agora.
Em um tempo em que a população prefere se esconder atrás de pedaços de vidro do que se nutrir por relações reais, como seria possível discutir e criar movimentos que irão salvar as nossas memórias? Será que um post viralizado e mil compartilhamentos nos stories basta? Ou teríamos que ir mais longe, mas nas pontas dos nossos dedos? Seria possível levar as nossas reivindicações de salvaguarda para um aplicativo e de acordo com a demanda, os departamentos entenderem que os quereres individuais na verdade são plurais e merecem representar o município através do registro?
Mas o que as pessoas iriam enviar para este aplicativo, que tanto representaria sua presença na cidade, se sua presença na cidade é apenas digital? Onde caminhar pela rua virou apenas olhar o pedaço de vidro flutuante, com relances de seus pés junto a esbarrões desconhecidos. Um vídeo de gatinho, que depois de duas assistidas percebeu que era feito por inteligência artificial?
Estaríamos diante da lápide do patrimônio e da memória? Ou ainda temos tempo de – sem soar pretensioso – salvá-lo de sua respiração por máquinas?

Prazer, eu sou a Camile Eulália (Mulher, Cis, 23 anos) e este é o meu primeiro texto para a Renca de memórias. Este texto nasceu no bloco de notas, enquanto eu estava sobrecarregada de tarefas para pensar e fazer, e percebi o quanto é importante ter espaços familiares para visitar ao sentir saudade de quando a vida era simples. Mas agora, não tendo estes locais materiais para visitar, percebo que devemos ter cuidado em manter nossas memórias vivas, pois em 4 anos, por exemplo, tudo pode mudar.

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