70 anos nas costas da Fundação Calouste Gulbenkian. Muitos anos a mais para o portador do nome, emblemado na fachada do museu. Afinal, quando discutimos patrimônio, discutimos somente o que se encontra atrás das vitrines, dos vidros de regulação térmica e dos alarmes antifurto? Ou podemos proteger o patrimônio ao mesmo tempo em que construímos uma visão do nosso afeto como sociedade? Destruir a memória de um patrimônio também é cortar as possibilidades de criação e reinvenção humana por meio de suas ramificações.
Visitei Lisboa nessas férias de julho e, como boa arte/educadora, minha primeira pesquisa no Google por semanas foi: “museus em Lisboa para visitar”. Só tinha um dia para visitas em museus dentro do meu cronograma de viagem, então a escolha de dois em meio a tantos espaços desconhecidos foi bem complicada. Acabou que me apaixonei pelo: MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa), e um jardim-museu que se encontrava bem no centro da cidade, como um refúgio de carros e prédios comerciais perfeitos, um lugar de respiro e que tinha reaberto a uns dois dias antes de eu chegar em Portugal. Imediatamente pensei, meio sonhadora: “ele reabriu para mim!”.
Com a reabertura do Museu Calouste Gulbenkian, após quase um ano e meio (março de 2025 a julho de 2026) em processos de revitalização do espaço — com obras de climatização e reestruturação dos caminhos de visitação da coleção permanente do museu —, o evento de reabertura da coleção permanente do museu organizou uma agenda de eventos comemorativos com entrada gratuita à coleção. Felizmente, tive a oportunidade de me inserir no calendário de reabertura na primeira semana de gratuidade, cercada de eventos ao longo do dia.
Vemos também a comemoração de 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma pequena exposição de cartazes dos eventos, que datam desde 1957 a 2026, dispostos em frente à biblioteca das Artes. Interessante a disposição dos cartazes, não? Algo tão corriqueiro e que, a partir de dada época, se torna veículo de rápida comunicação de artes e design, normalmente com tons políticos, agora como veículo de rememorização da produção e coletivo experienciado por uma fundação mundialmente conhecida.
Tantos eventos, tanto conhecimento, distribuídos no espaço expositivo apenas pela memória gráfica dos mass media. A curadora, Ana Barata, nos acompanha por um pequeno recorte da história da fundação, com meu destaque especial para a exposição de Hélio Oiticica de 1993, utilizando-se de postos transparentes e com fundo preto para visualização dos cartazes. Lembro de me pegar comparando com os da coleção do MASP. O processo não é pré-definido em uma linha temporal crescente; ao contrário, temos cartazes e vislumbres do que o Museu Calouste Gulbenkian foi em diferentes anos, um ao lado do outro. Encaro um cartaz de 2010 ao lado de um de 1966. A agenda da comemoração pelos 70 anos vai até dezembro desse ano, com eventos exclusivos nos prédios e jardins do complexo Gulbenkian.

Caminhando pelos jardins do museu, comecei a pensar sobre tantas histórias que já viveram ali e que estavam acontecendo diante dos meus olhos naquele dia. Havia uma concentração por volta do espaço do palco a céu aberto, montagens da orquestra ou outra apresentação e grupos sentados nos degraus observando aquilo se desenvolver.
Depois de passear pela exposição permanente da coleção e pelas dos “70 Anos Em Cartaz”, penso ainda mais na diversidade do patrimônio: da guarda de um colecionador, à doação e criação de uma fundação, à reimaginação de vivência do espaço coletivo. Como analisamos o mesmo lado da moeda por dois olhares distintos. Tive essa sensação quando me encantava com a grandiosidade da coleção de Calouste, cada mínimo passo na história de uma sociedade, e como, ao sair, me encontrava no mesmo lugar, mas um museu diferente.
O museu cria uma máquina do tempo; ao entrar nas salas de exposição, passamos cronologicamente por cada época colecionada por Calouste, uma pequena biografia do colecionador e uma explicação sobre o que e a quem estávamos nos deparando. Infelizmente não temos mediadores dentro da coleção principal; vagamos, de certa forma cegos, por entre as galerias elaboradas. A coleção termina com obras do século XVIII; temos Degas, Renoir e Monet pendurados nas paredes e Rodin entre as colunas do prédio.
Ainda assim, mesmo depois de uma volta no tempo, ele se completa somente fora do espaço expositivo: pelo coletivo vivo e andante. Os queridos cartazes ao longo dos 70 anos não mostram somente o que foi feito de eventos culturais, mas mostram também a continuação do legado humano que fica atrás dos vidros temperados por questões de conservação. Como ainda continuamos a ocupar espaços e transformar nós mesmos por meio da interação humana, com glimpses de mostras passadas de outros países, outras mídias e movimentações efêmeras, que agora só temos o registro da imprensa rápida e em larga escala, que são os cartazes.
O patrimônio seria isso, não? Conservar e observar o que se desdobra e se mantém vivo em nós. Como o coração ainda se encanta pelo passado e encontra abrigo no coletivo presente, ao se lançar às experiências de arte. O museu será o mesmo daqui a mais 70 anos? Acredito que a coleção permanente não se altere materialmente, mas a cada nova pessoa que flui por entre as paredes deixa um pouco de si, por trás do vidro de contenção, nos piqueniques no jardim, nas cantorias durante as apresentações dos palcos e no alimentar (proibido, por sinal) dos patos e tartarugas que vivem ali dentro.
O importante é saber que, muito provavelmente, não estaremos aqui para ver com tanta lucidez, mas o afeto criado dentro de instituições é que a muda e a faz movimentar. O papel de dar, num gesto simbólico e coletivo, é o que fortalece uma fundação que aprendeu a receber.
É para isso que estudo, observo e fruo arte, também em patrimônio. Para cada vez mais perceber e sentir memória de outros que vieram antes de mim e permanecem ao lado. Manter o patrimônio aberto, não guardado numa coleção privada ou jogado às traças. Ser humano também é proteger os coletivos que nós não tocamos essencialmente, é permitir que a memória continue se alimentando e crescendo em nós, nos nossos amigos e familiares, e assim por diante.

Acredito que quebrar o fluxo já predestinado é o que nos permite dar mais um passo à frente, reconstruir nossas sinapses e olhar para um monumento, uma obra de arte ou uma aglomeração com um outro “eu” e um outro “nós”. Por aqui termino meu primeiro texto para o Renca de Memórias; me chamo Letícia Mello, tenho 22 anos e sou apaixonada por tudo que envolve arte e suas interseções com o patrimônio. Espero aqui construir um jardim com vocês, para assim preservar as flores e raízes plantadas antes de nós.
Referências
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN. Gulbenkian, 70 anos em cartaz. Lisboa, 2026. Disponível em: https://gulbenkian.pt/agenda/gulbenkian-70-anos-em-cartaz/. Acesso em: 6 ago. 2026.
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN. Museu Gulbenkian encerra para obras de requalificação. Lisboa, 20 jan. 2025. Disponível em: https://gulbenkian.pt/noticias/museu-gulbenkian-encerra-para-obras-de-requalificacao/. Acesso em: 6 ago. 2026.
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN. A Fundação. Lisboa, 2025. Disponível em: https://gulbenkian.pt/fundacao/a-fundacao/. Acesso em: 6 ago. 2026.

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