Há pouco mais de uma semana, a Galeria Uffizi, em Florença, foi vítima de uma forte tempestade que, infelizmente, causou uma infiltração para dentro do espaço museológico, colocando em risco a obra “Baco” do artista barroco Caravaggio. Por um milagre, se assim posso dizer, a obra não sofreu danos, mas a chuva chegou a se escorrer na superfície do vidro de proteção da obra, pondo-a em risco iminente.
A Uffizi não foi a única afetada pela enorme quantidade de chuva que atingiu o polo da Renascença italiana: houve inundação de duas galerias — a Galleria Palatina e a Galleria d’Arte Moderna — no Palazzo Pitti.
Além de que, nas ondas de calor que perpassam a Europa, principalmente durante a intensificação desse ano, a Uffizi precisou ser fechada por um período para os profissionais da preservação garantirem a integridade das obras expostas.
O que eu realmente quero dizer com isso tudo? Bem, nossas próprias ações como humanidade estão pondo em risco os maiores tesouros que poderíamos ter: o testemunho, em forma de arte, da nossa memória coletiva.
Me pergunto constantemente sobre o trabalho árduo da preservação, em que ela se coloca em um recorte de tempo em que os maiores colecionadores de arte, dita aqui como aquela “erudita”, se esforçam cada vez mais em se afogar no próprio dinheiro e assistir nós nos afogando em consequências dos que se comandam.
Os quadros suam, as tintas craquelam, as estátuas racham e o papel umedece. Somos arquivos andantes e estamos observando nossa biblioteca cair.
Até que ponto a ciência da conservação conseguirá se agarrar a esses registros e ainda os manter em pé?
Até quando ainda vamos poder entrar em um museu e ver obras de 1500+ anos atrás?
Até quando os registros “antes de Cristo”, como nosso calendário nos lembra constantemente que nossa civilização é muito mais antiga que um só personagem na história, ainda poderão ser expostos para turmas de crianças entenderem de onde nós viemos e crescemos?
E será que crescemos? Se o ápice do desenvolvimento humano for derreter todo resquício de arte que construímos até aqui, como ainda nos consideraremos humanos?
Quem seremos nós se olharmos para uma parede e não reconhecermos mais o passado?
Os exemplos que dei da Uffizi e do Palazzo Pitti são simples ilustrações do que vem ocorrendo desde antes da virada do século. Estamos esquentando e observando nosso próprio derretimento.
Vejo sim que, para alguns, esse aquecimento e resfriamento excessivos nas estações do planeta Terra sejam interessantes. Os quadros vão aumentar de preço, o mercado vai ficar desesperado em competição, nós nos tornaremos sanguinários da arte.
Ou até num âmbito um pouco mais próximo de nós; quem nunca ouviu ou pensou sobre uma “duvidosa” obra de arte? Há quem a beleza importe mais do que um registro da sociedade e anseie pelo escorrer dessa obra que desaprova.
Eu vejo que tudo importa, o dito “belo” e, principalmente, o dito “feio”; “esquisito”; “nojento”; “asqueroso”. Como se sustentar na beleza se a realidade que vemos e construímos não é bela? O desviante segue para nos incomodar e puxar a orelha.
Uma obra que é reservada somente para o interior de uma reserva técnica perde sua composição de movimentação da sociedade, porque não interage com ela, mas aparentemente é esse o caminho que estamos trilhando, recorrer a salvaguardas extremas porque o ambiente a danifica. Até quando a reserva técnica também aguentará a preservação dessas obras?
O que será de nós se a grande sala de aula, que são os museus de arte, retirar, pouco a pouco, as matérias que se formulam no nosso cerne? Uma sala de aula vazia é somente uma sala.
Não existem estudos e teorias da química que se evoluam exponencialmente para conservarmos e restaurarmos a massa de destruição causada nessas obras de arte. Não existe também estrutura de museu que aguente os efeitos da pátina do tempo e os ataques do clima aumentando.
Não serão todas as obras, nos mais diversos museus e centros culturais, que terão sempre à sua disposição o vidro de proteção da obra. Da próxima vez, talvez vejamos as águas da tempestade caindo diretamente sobre uma obra, e não sabemos se ela sobreviverá integralmente a essa ocasião. O quanto iremos apostar, o quanto iremos sobrecarregar os profissionais do patrimônio sobre erros coletivos, até todos ficarem exaustos e não conseguirem mais desviar as ocorrências?
Ainda me encontro em esperança de diminuirmos isso tudo; ainda me pego rezando para acordar e poder visitar um museu com todos os registros daquilo que forma a sociedade e, consequentemente, me forma como pessoa e profissional. Paulo Freire já dizia que educação sem a luz da esperança não existe; levo isso todos os dias para a sala de aula, seja ela numa escola municipal ou dentro do laboratório de preservação de uma instituição museológica.
Sou Letícia Mello, tenho 22 anos e, admito, meu segundo texto para a Renca de Memórias se encontra em meio a desabafos e preocupações para com o futuro da minha profissão e dos objetos de estudo que tenho em mãos. Esse texto nasce a partir das notícias referentes à Galleria Uffizi, onde finalmente consigo articular inquietações sobre para onde caminha a humanidade e que patrimônio se constrói a partir dela.
Referências
BONART. A água invade a Galeria Uffizi sem danificar o ‘Baco’ de Caravaggio. Bonart, 18 set. 2026. Disponível em: . Acesso em: 21 set. 2026.
COMUNITÀ ITALIANA. Temporal em Florença faz água chegar à caixa de proteção do Baco de Caravaggio, nos Uffizi. Comunità Italiana, 17 set. 2026. Disponível em: . Acesso em: 21 set. 2026.

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